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12 de dezembro de 2025O ordenamento jurídico brasileiro contempla diversas formas de relação laboral, sendo as mais comuns o contrato de trabalho e o contrato de prestação de serviços.
A distinção entre esses dois institutos é de extrema relevância, pois define o regime jurídico aplicável, os direitos e deveres das partes envolvidas, além da competência jurisdicional para a solução de eventuais controvérsias.
Em um contexto de crescente flexibilização das relações de trabalho, impulsionado pela expansão das novas tecnologias e pela economia de plataformas, compreender os limites entre essas modalidades contratuais torna-se imprescindível.
O presente artigo analisa os principais elementos que caracterizam cada tipo de contrato, os riscos inerentes à fraude trabalhista, os critérios adotados pela jurisprudência para a identificação do vínculo de emprego e o atual entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da pejotização e da terceirização.
Conceito e Natureza Jurídica dos Contratos
O contrato de trabalho, regulado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), caracteriza-se pela prestação de serviços por pessoa física, de forma pessoal, subordinada, onerosa e não eventual.
Essa relação jurídica estabelece um vínculo empregatício, que confere ao trabalhador uma série de direitos fundamentais, tais como férias, 13º salário, FGTS, aviso prévio e demais garantias previstas na legislação laboral.
Para entender o ciclo contratual até a rescisão, consulte nosso guia sobre rescisão do contrato de trabalho.
Por sua vez, o contrato de prestação de serviços, disciplinado pelos arts. 593 a 609 do Código Civil, pode ser firmado tanto por pessoa física quanto jurídica, e é marcado pela autonomia do prestador, que executa o serviço sem subordinação hierárquica, possuindo liberdade para definir a forma, o tempo e os meios de execução.
Trata-se de uma relação de natureza civil, na qual não se aplicam as normas protetivas da CLT, mas sim os princípios gerais do direito obrigacional.
Elementos Distintivos Essenciais
A diferenciação entre o contrato de trabalho e o contrato civil de prestação de serviços depende da análise da presença, ou não, dos requisitos do art. 3º da CLT, em especial os seguintes elementos:
- Subordinação: No contrato de trabalho, o empregado está sujeito ao poder diretivo do empregador, que exerce controle e fiscalização sobre a forma e o resultado da atividade. No contrato civil, o prestador atua com autonomia técnica e gerencial, sem sujeição a ordens hierárquicas.
- Pessoalidade: O vínculo empregatício pressupõe que o serviço seja prestado pessoalmente pelo trabalhador. Já no contrato civil, admite-se a substituição do prestador por terceiros, salvo disposição contratual em contrário.
- Onerosidade: Ambos envolvem contraprestação, mas no contrato de trabalho o pagamento assume a forma de salário, com periodicidade definida e encargos sociais. No contrato civil, o pagamento ocorre mediante preço ajustado, sem obrigações acessórias trabalhistas.
Para empresas que desejam evitar riscos de autuações, é essencial adotar práticas de compliance trabalhista na contratação. - Habitualidade: A continuidade da prestação é elemento típico da relação de emprego. Na prestação de serviços, a execução pode ser eventual ou por obra certa, sem caracterizar habitualidade.
Riscos da Falsa Contratação e da Fraude Trabalhista
A utilização indevida do contrato de prestação de serviços para encobrir uma verdadeira relação de emprego configura fraude trabalhista, vedada pelo ordenamento jurídico.
O art. 9º da CLT dispõe que “serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos trabalhistas”.
Essa prática sujeita o contratante às sanções legais, incluindo o reconhecimento retroativo do vínculo empregatício, o pagamento das verbas trabalhistas e previdenciárias devidas, além de multas e indenizações.
Ademais, pode ensejar a fiscalização por órgãos públicos, como o Ministério do Trabalho e a Receita Federal, e gerar responsabilidade civil e administrativa.
Jurisprudência e Critérios de Reconhecimento do Vínculo Empregatício
A Justiça do Trabalho exerce papel essencial na identificação das relações jurídicas que se revestem de características de emprego, aplicando o princípio da primazia da realidade, segundo o qual a realidade fática prevalece sobre a forma contratual.
- Saiba também como o compliance trabalhista pode ajudar sua empresa a se manter em conformidade com a Justiça do Trabalho.
Assim, ainda que as partes formalizem um contrato civil, a existência dos requisitos do art. 3º da CLT autoriza o reconhecimento do vínculo empregatício.
A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) é pacífica nesse sentido, reconhecendo o vínculo de emprego sempre que comprovada a subordinação jurídica, ainda que o contrato seja formalmente apresentado como prestação de serviços ou firmado com pessoa jurídica.
A Pejotização e o Entendimento do STF
Nos últimos anos, o fenômeno da pejotização (contratação de pessoa física por meio de pessoa jurídica com o intuito de reduzir encargos trabalhistas) tornou-se uma das questões mais relevantes no Direito do Trabalho contemporâneo.
- Veja também por que o empresário não deve temer a Justiça do Trabalho e como atuar dentro da legalidade sem riscos de autuações.
Em 2018, o Supremo Tribunal Federal firmou importante entendimento nas ações ADPF 324 e RE 958.252 (Tema 725 da repercussão geral), reconhecendo a constitucionalidade da terceirização de quaisquer atividades, inclusive a atividade-fim da empresa.
O STF entendeu que não há vedação constitucional à contratação por pessoa jurídica, desde que ausentes os elementos caracterizadores da relação de emprego.
Contudo, o Tribunal deixou claro que a liberdade de contratar não autoriza a fraude. Assim, quando demonstrados subordinação, pessoalidade, habitualidade e onerosidade, o contrato civil deve ser desconsiderado, prevalecendo o vínculo empregatício, em consonância com o princípio da primazia da realidade.
Em síntese, a jurisprudência do STF ampliou as possibilidades contratuais lícitas, mas manteve a proteção contra a pejotização fraudulenta, reforçando a importância da análise fática de cada caso concreto.
Considerações Finais
A distinção entre contrato de trabalho e contrato de prestação de serviços é essencial para a preservação da segurança jurídica e para a efetividade dos direitos sociais. A correta identificação da natureza jurídica da relação evita práticas fraudulentas e assegura a observância dos princípios da dignidade da pessoa humana e da valorização do trabalho.
Compete às empresas, profissionais liberais, advogados e órgãos fiscalizadores adotar postura ética e diligente, garantindo que os contratos firmados reflitam a real natureza da prestação de serviços, em conformidade com os ditames legais, a jurisprudência trabalhista e o atual entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre terceirização e pejotização.
No processo de contratação, é importante conhecer a melhor forma de contratar um trabalhador e adotar um regulamento interno empresarial que fortaleça a segurança jurídica.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho. Disponível em: http://www.planalto.gov.br
- BRASIL. Código Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br
- BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADPF 324/DF e RE 958252/MG (Tema 725 da Repercussão Geral). Rel. Min. Luís Roberto Barroso. Julg. em 30 ago. 2018.
- DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, 2023.
- NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Iniciação ao Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, 2022.




